Dr. Amélio Luiz Bossa Pinto-Ribeiro
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Um Mago da Angiologia...
A biografia de um Mestre deve começar a ser escrita assim.
Amélio Luiz Bossa Pinto-Ribeiro nasceu na cidade do
Porto, em Portugal, em 26 de agosto de 1931. Filho único
de Amélio Luiz Paiva Pinto-Ribeiro e de Alzira da Conceição Bessa Pimo-Ribeíro, veio para o Brasil ainda na infância, o que explica a aliança nele existente entre a verve
humorística do carioca e a postura fidalga do europeu. Fez
os seus primeiros estudos ainda no Porto, mas aos 10 anos
de idade já frequentava a Escola Estadual Celestino da
Silva, no Rio de Janeiro, e, posteriormente, a Escola de
Santo Alberto, onde completou o curso primário. O ginasial e o científico foram cursados no tradicional Colégio São
Bento, estacando-se por sua inteligência aguçada, onde
leve oportunidade de adquirir a base dos sólidos conhecimentos culturais que o acompanharam por toda a existência. |
O curso médico foi realizado na Faculdade de Ciências
Médicas da Universidade do Distrito Federal (amai Universidade do Estado do Rio de Janeiro), onde ingressou em
1952, aprovado em 25° lugar no exame de seleção, graduando-se na turma de 1957. Durante a sua formação, teve
passagens em alguns dos importantes serviços universitários
ligados à Faculdade Nacional de Medicina da Universidade
do Brasil. Assim, foi estagiário da Seção de Endocrinologia
do Hospital Moncorvo Filho sob a chefia do Professor
Jayme Rodrigues, da Clínica Obstétrica do Professor Clovis
Corrêa da Cosia no Instituto Fernandes Figueira, da Cadeira de Terapêutica Clínica do Serviço do Professor Lafayette
Pereira na XXV Enfermaria da Santa Casa da Misericórdia
do Rio de Janeiro, sob orientação do Professor Mário Pinto
da Miranda, e, depois, veio a se tornar interno oficial da Cadeira de Clínica de Propedêutica Médica do Serviço do Professor Luiz Feijó, no Hospital Estadual Moncorvo Filho.
Neste último, teve os seus contaios iniciais com a Angiologia por meio de seu primeiro mestre na especialidade. Professor Algy de Medeiros. O interesse pela especialidade levou-o, em 1958, a frequentar o Instituto Policlínico de Barcelona, Departamento de Angiologia, dirigido pelo inesquecível Professor Fernando ManorelI, onde se destacou
como aluno do Curso de Angiologia e Assistente Estrangeiro. Retornando ao Brasil, acompanhou Algy de Medeiros
em inúmeros trabalhos e projeios no campo das doenças
vasculares, ingressando no Hospital de Clínicas Pedro
Ernesto da então Universidade do Estado da Guanabara, na
Seção de Angiologia da Cadeira de Propedêutica Médica do
Professor Luiz Feíjó, primeiro como assistente voluntário e,
posteriormente, efetivado como médico contratado, ali permanecendo de 1963 a 1974, quando, a seu pedido, foi exonerado para se dedicar exclusivamente à clínica privada.
Nestes quase 15 anos de convivência da dupla Algy de
Medeíros-Amélio Pinto-Ribeiro, a Angiologia brasileira experimentou um notável avanço na sua divulgação como especialidade médica, seja através de cursos organizados, palestras proferidas, trabalhos publicados, introdução de novos e aprimoramento de antigos métodos terapêuticos e
sedimentação de conceitos sobre propedêutica e fisiopatologia das doenças vasculares.
Amélio Pínto-Ríbeiro foi o grande mentor da criação
da revista Angiopatias, o primeiro periódico da especialidade
no Brasil, sendo o seu Redaior-Chefe durante os dez anos de
sua circulação (1961-1971)» em um total de 40 números.
Junto com Algy, aperfeiçoou a escleroterapia como método
de tratamento de mícrovarizes, estabelecendo suas reais
indicações, divulgando a técnica correia de aplicação (criando, inclusive, uma, a do 5° dedo) e a base para composição da solução esclerosante, o que o tornou uma referência
nacional com relação ao método.
Em dezembro de 1971, ainda sob influência da arividade académica, defende a tese "Varizes Essenciais. Estudo
de 5.000 Casos" para título de Livre-Docente em Angiologia na Faculdade de Medicina da Universidade Federal
do Rio de janeiro. A Banca Examinadora, constituída pêlos Professores Edgar Magalhães Gomes (Presidente), Luiz
Feijó, Sydney Arruda, Algy de Medeiros e Fernando Duque, aprovou o candidato com a nota 9,6.
A trajetória pessoal e profissional de Amélío Pinto-Ribeiro levou-o a receber inúmeros prémios e honrarias.
Assim, em 1961, junto a Algy de Medeiros, foi contemplado
com o Prémio Miguel Couto e a Medalha de Bronze da Academia Nacional de Medicina com o trabalho "O infarto do
miocárdio em jovens". Em 1962, recebeu Menção Honrosa
da Academia Nacional de Medicina, no XI Congresso Nacional de Medicina, pelo trabalho "Tratamento das gangrenas
em diabéticos". Foi detentor de vários votos de congratulações da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro,
por relevantes trabalhos associativos e científicos desenvolvidos, culminando com a outorga do Título de Cidadão do
Estado da Guanabara (Cidadão Carioca), proposto pelo Deputado Sebastião Menezes, e entregue no dia 23 de outubro
de 1974, no Hospital de Clínicas IV Centenário.
Além do Hospital Universitário Pedro Ernesto, Amélio Pinto-Ribeiro ainda teve passagens memoráveis por outras instituições assistenciais, como o Instituto Estadual de
Diabetes e Endocrinología, sob a Direção do Dr. Francisco Arduíno, onde foi encarregado do Setor de Angiologia. Trabalhou, por breve período, com a Professora Meriza Garrido no Serviço de Angiologia e Cirurgia Vascular
do Hospital Estadual Getúlio Vargas e foi médico do Hospital IV Centenário, exercendo, entre outros cargos, o de
Diretor Vice-Presideme, de 1973 a 1983.
Autor de centenas de trabalhos publicados em periódicos nacionais e internacionais, versando sobre temas médicos os mais variados, alguns clássicos da especialidade, outros um tanto curiosos, frutos da sua hábil criatividade e
senso de pesquisa. Entre os últimos, podem ser citados, "Fotografia Infravermelha em Angiologia", "Gangrenas das
Extremidades em Lactentes", "Um Novo Método: a Termografia", "La Téchnique du Cinquième Doigtdans Ia Esclerose dês Varices", "O Custo do Tratamento das Varizes" etc.
Tinha especial interesse pela patologia venosa, talvez motivado por sua visão humanística sobre o papel do médico na
sociedade. Ao mesmo tempo em que se preocupava em tornar a escleroterapia um método de tratamento não-cosmérico, em seu consultório, buscava alternativas para melhor cicatrizar as úlceras de estase venosa e cuidava com todo
carinho dos pacientes que acorriam ao ambulatório público
do Hospital Pedro Ernesto. Sua aguçada curiosidade pelo
novo tornou-o pioneiro na divulgação de métodos comple
mentares, seja através de registros escritos e comentados sobre o surgimento dos mesmos, seja pela sua eferiva aplicação
na prática clínica. Assim aconteceu com a fluxometria ultra-sônica (Doppier), a plerismografia, a termografia, o laser. Pioneiras e modernas também foram a sua tese de docência escrita em computador (possivelmente, a primeira no
Brasil) e a informatização do seu consultório particular no
Edifício Avenida Central, no centro do Rio de Janeiro, local
de romaria de especialistas desejosos de "copiar" suas ideias
originais sobre a praricidade do funcionamento de uma clínica angiológica. A apresentação de trabalhos em congressos
e reuniões científicas sobre doenças vasculares, em eventos
de sociedades especializadas ou não, nacionais ou estrangeiras, no país e no exterior, também alcançou número centenário, em um processo de valor inestimável para a divulgação da Angiologia brasileira. Foi autor, com Meriza Garrido, do livro Linfangites ó' Erisipelas, publicado em 1985
pelo Fundo Editorial BYK Procienx e reeditado pela Editora Revinter em 2000.
Por sua elegância verbal, bom senso e apurado raciocínio didático, aliados à impecável qualidade da documentação que apresentava artisticamente em slides (não só ilustrativa quanto esquemática), Amélio Pinto-Ribeiro era bastante requisitado como palestrante. A moderação também
era seu forte, pela fluência e leveza com que conduzia uma
discussão sobre os mais variados temas da Angiologia. Por
sua incansável capacidade de trabalho e de organização,
desempenhou inúmeras funções associativas, tendo sido
membro da atual Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular desde 1957, nela exercendo diversos cargos
e funções, entre os quais o de Presidente da Regional Rio de
Janeiro, no biénio 1975-1977. Foi, também, membro da
Comissão Organizadora do Concurso para obtenção do Título de Especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular, de
1976 a 1981. Possuía a medalha da Ordem do Mérito
Angiológico René Fontaine, na categoria de Mestre. Outras
Sociedades o tiveram como membro titular, como a
Associação Médica de Língua Portuguesa, a Asociación de
Ex-alunos de Martorell, a International Academy of Law and
Science, em Nova Iorque, a Sociedad EspañoIa de Angiologia,
a Société Française de Phlébologie, a Sociedad Argentina de
Flebolinfologia, The International Cardiovascular Society,
The International Society of Lymphology e o Colégio Brasileiro de Cirurgiões.
Por fim, o lado literário de Amélio Pinto-Ribeiro não
pode deixar de ser lembrado. Em 1948, já ganhava um prémio (2° lugar) no Concurso Literário Agir, com o tema "A
Figura dos Grandes Mortos como Elemento Civilizador".
Foi, ainda, membro diretivo atuante do Real Gabinete Português de Leitura, do Rio de Janeiro. Nos últimos anos da
sua vida, tinha como diletantismo rotineiro a publicação de
crónicas semanais no Boletim dos ônibus chamados "fres (refrigerados), que circulavam no Rio de Janeiro, nas
abordava assuntos do coddiano com grande proprie e senso de humor.
No auge da sua vida profissional, ainda tendo muito a
simsmitir sobre sua experiência humanística e angiológica,
Amélio Pinto-Ribeiro nos deixou em 12 de março de 1991, aos 59 anos de idade.
E a biografia de um Amigo inesquecível deve completar-se assim.
"Recordar ou definir Amélio Pinio-Ribeiro (com hífen,
ele gostava), em breves palavras que façam justiça à
sua personalidade, é algo que foge um pouco à minha capacidade
intelectual e, quem sabe, emocional. No entanto,
posso deixar registrado que, no dia-a-dia, recordo o mestre
Amélio, que me apresentou e fez também despertar em
mim o amor pela Angiologia; ficam comigo os seus primeiros (e eternos) ensinamentos, sempre voltados para doar o
que de melhor houvesse para o doente. Recordo o Amélio,
companheiro de labuta, exemplo que tentei seguir (e ainda
tento) de dedicação e de capricho para com as tarefas em
que se empenhava, fazendo com que sua "marca", depois de
tantos anos de afastamento, ainda permaneça no serviço em
que juntos trabalhamos e que, por direito, hoje deveria liderar. Recordo, ainda, o homem Amélio, alegre, espirituoso,
solidário, frágil, humilde, que do alto do seu saber jamais
poupava palavras de estímulo e de elogio a quem merecesse,
mesmo que fosse o mais jovem especialista que se punha diante do seu senso crítico. Recordo, por fim, o Amélio intelectual, poliglota, conhecedor profundo de várias artes (da
literatura à música, da gastronomia à fotografia), faceta que
tão bem registrava em seus escritos." (Transcrição do texto
escrito pelo autor para a publicação Memória Viva, da
SBACV, organizado por Júlio Joaquim Pierin Siqueira, em
outubro de 1997).
Escrito há quase 8 anos, o texto acima ainda permanece
fiel ao sentimento da lembrança do autor por este querido
amigo que iluminou por um período a sua vida pessoal e
profissional. Amélio foi mestre, irmão mais velho e fiel
companheiro das horas de alegria e de tristeza. Convivemos
nos ambientes científicos e sociais. Estudamos juntos desde
Angiologia até Organização Hospitalar (em um memorável
curso feko aos sábados, de manhã e à tarde, na Policlínica
do Rio de Janeiro, que invariavelmente terminava com um
chope ou um vinho como desculpa pelo estresse do fim de
semana ainda trabalhado). Conheci a sua família, da qual
guardo carinhosa recordação, da esposa Hermelinda aos filhos Valéria, Rui e Bruno. Ivanésio Merlo, o genro seguidor
dos seus passos na clínica privada, me concede esta honra
de, mais uma vez, divulgar, para os mais jovens, o significado de Amélio Pinto-Ribeiro como um ícone da Angiologia brasileira e, para os mais antigos, a oportunidade de que
não nos esqueçamos de que as nossas açôes são as marcas
que aqui deixamos para servirem de rótulo a nossa imagem
finura. E, ao meu ver, a melhor imagem que Amélio
Pinto-Ribeiro pode nos legar, por suas Valiosas atitudes e sábias lições, é a que me permite considerá-lo um sempre lembrado Mago da Angiologia.
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